“Cristiano Ronaldo não era consensual no Sporting. Nem todos simpatizavam com ele”

Paulo Sérgio deu, esta terça-feira, ao portal norte-americano The Athletic, o seu sentido testemunho a propósito de Cristiano Ronaldo, jogador com o qual partilhou balneário, nos escalões de formação do Sporting, e que, agora, está ‘sob fogo’, por conta da prestação de Portugal no Campeonato do Mundo.

“Eu tinha 13 anos de idade quando cheguei ao Sporting, vindo do Oriental, um clube mais pequeno, de Lisboa. O Cristiano estava, naquela altura, por lá há um par de anos, depois de ter chegado da Madeira. Eu não o conhecia, quando cheguei. Estava no ano acima, e ele ainda não tinha começado a jogar na faixa etária acima da dele”, começou por afirmar.

“Sinceramente, ele não me deixou uma grande impressão imediatamente. Dava para ver que ele tinha uma técnica decente, mas não era um dos jogadores em destaque na academia. Eu fiz parte de uma grande geração, no Sporting, com montes de rapazes a competirem por atenção. O ataque era especialmente forte. Edgar Marcelino, Fábio Ferreira e eu acabámos por jogar por Portugal, ao nível jovem”, prosseguiu.

“O Cristiano subiu para a nossa equipa de sub-15, em 1998. Foi até que começou a demonstrar aquilo que conseguia fazer. Ele era um dos rapazes mais novos, mas toda a gente conseguia ver que havia algo lá. E, ao longo daquela época, ele evoluiu muito. Foi completamente fora do normal”, completou.

Paulo Sérgio recorda que, “tecnicamente, Cristiano Ronaldo “era muito bom”: “‘Decisivo’ foi a palavra que sempre usei. Ele era muito rápido. Era esguio, não tinha uma grama de gordura, mas também era forte para a idade. Conseguia bater os marcadores usando o físico. Durante a maior parte daquele época, jogámos com três avançados, eu, o Cristiano e o Edgar Marcelino”.

“Não tínhamos posições fixas, rodávamos e trocávamos sempre que queríamos. Tentávamos coisas, criávamos oportunidade atrás de oportunidade… Jogávamos como completos foras da lei. Tínhamos um grande entendimento. Foi muito divertido jogar com ele. O Cristiano ficava sempre lá depois do treino. Rematava, treinava os pontapés-livres, percorria o repertório de fintas e trabalhava em novas”, recordou.

O dia em que Cristiano Ronaldo levou uma “descasca em frente de todo o plantel”

A ética de trabalho de Cristiano Ronaldo ficou evidente desde bem cedo, confessou Paulo Sérgio, que sublinhou, ainda assim, que nem tudo foi um ‘mar de rosas’: “Ele costumava esgueirar-se até ao ginásio do centro de treinos para fazer levantamentos de peso extra, à noite, depois de os outros terem ido para casa. Ele e um companheiro de equipa, José Semedo”.

“O nosso treinador descobriu o deu-lhes uma descasca em frente de todo o plantel. Todos achámos aquilo muito engraçado. Ainda assim, o Cristiano continuou a fazê-lo. Acho que ele até levou alguns dos pesos de volta para o quarto. Isso demonstrou que, mesmo quando era um miúdo, tinha a mentalidade pela qual, mais tarde acabaria por ficar conhecido. Era diferente”, relatou.

“Se era popular? Nem por isso. Nem toda a gente gostava dele. A vontade que tinha de vencer, por vezes, levava a conflitos com os companheiros de equipa. Ele queria que toda a gente fosse perfeita como ele. Exigia muito a si próprio, e esperava que os outros fizessem o mesmo. Ao mesmo tempo, ele queria ser o melhor em tudo, em todos os exercícios no treino. Podia ser uma personalidade difícil”, acrescentou.

“Tudo isso significa que muitas pessoas foram contra ele. Eu diria que ele só se tornou realmente popular quando começou a ser chamado à equipa principal, uns poucos anos mais tarde. Eu estive sempre do lado dele, ainda assim. Tal como o Cristiano, eu era um competidor nato. Adorava medir forças com ele, durante os treinos. E, fora do futebol, era um tipo de topo”, rematou.

“Diria-lhe que nunca mudasse em relação à pessoa que sempre foi”

A terminar, o agora comentador desportivo, de 42 anos de idade, aproveitou a ocasião para enviar uma mensagem ao compatriota: “Sinto um orgulho imenso em todo aquilo que alcançou neste desporto, enquanto português, mas, especialmente, enquanto antigo companheiro de equipa, alguém que desempenhou um pequeno papel no seu desenvolvimento como jogador”.

“São memórias que guardo. A minha mensagem ao Cristiano? É simples. Eu diria-lhe para continuar a desfrutar do futebol tanto quanto puder, porque uma carreira passa rapidamente. E diria-lhe que nunca mudasse em relação à pessoa que sempre foi”, concluiu.

Related posts:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.